domingo, 22 de junho de 2014

SAUDAÇÃO DE VERÃO

            SONETO
Se Juno segue, já, a mais de meio...
seu caminho de luz no céu sereno...
chega o calor de Apolo, ainda ameno,
que faz, de cada dia, um bom recreio.

O Júlio entra alegre e não alheio
aos alacres odores, soltos, do feno...
aproxima-se Apolo do seu pleno
e já traz o calor algum receio.

E Cronos traz Augusto, e, vem consigo
o brasido de um mundo em combustão...
cada caule, a secar, é um pavio...

De dia... cada sombra é um abrigo
à espera do consolo de um serão
na calidez, noturna do estio.

Matos Serra in, Belezas do Sul.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

ALENTEJO, SAUDADES, MÁGOAS E AFETOS

Quantas águas e outras águas
passaram p'las tuas pontes...
e quantas mágoas... e mágoas...
pelos teus montes e fráguas...
Por quantas fráguas e montes!

Quantos trabalhos e dias
e quantas leiras aradas...
Quantas dores e alegrias...
quantas lutas e ousadias...
Quantas frias madrugadas!

Quantos os contos contados
em descuidados serões...
Óh! nos meus tempos passados...
quantos toques de finados...
Doridas recordações!

Quanta gente acompanhei
por quantas ruas e praças...
Quantos? são tantos... nem sei,
nos deixaram e chorei...
com quem antes troquei graças!

Quantos verões e primaveras
que se foram e tornaram
em chegadas de outras eras...
Quantos anseios e quimeras
em outonos que findaram!

Quantos bardos te cantaram...
quantos mais te hão-de cantar...
Quantos versos nos deixaram
poetas que conjugaram
as formas do verbo amar!...

Meu Alentejo de amores,
de afetos e amizades...
de graças, risos e flores...
de mágoas, penas e dores
e tantas, tantas... saudades!

Quantas folhas que tombaram
para virem, de novo, as flores...
Quantos invernos passaram...
quantos frios enregelaram
os corpos, com seus rigores

Quantos rebanhos pastaram
pelas campinas e prados...
Quantos ventos que sopraram,
quantas flautas que tocaram
os pastores tangendo os gados...

Quanto baile... quanta festa...
divertidos arraiais?
Podem chamar-te modesta...
Para mim... não há como esta...
Terra dos meus ancestrais!....

Quantas belas romarias
aonde se enamoraram
quantos Josés e Marias?
E quantas as nostalgias
desses tempos que passaram...

Pára... pára, coração...
ou, então... chora à vontade.
Mas... basta de invocação
desses tempos que lá vão...
Que me matas de saudade!

 Matos Serra in, Alentejo, as Terras e as Gentes.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013


 
ENCANTAMENTO  E… SAUDADE.
          Mote de Rosa Pires          
MOTE

És vida, poema e cor

Que sais da terra fresquinha,

Espelho, pureza, esplendor,

Fonte da vila, rainha.

 

Ao sair para Vaiamonte,

lá em baixo, junto à ponte,

paro e ouço em meu redor

um eco que vem do monte

e diz, à velhinha fonte,

és vida, poema e cor.

 

 

Imita uma voz magoada,

como de moura encantada

que, em cada dia, à tardinha,

diz à fonte emocionada:

Tu, és, vida renovada,

que sais da terra fresquinha.

 

 

Eu, ao ouvir essa voz,

lembro meus pais e avós

que sempre iam ao sol-pôr

e, levavam-nos – a nós…

p’ra ver, com eles, a sós,

espelho, pureza, esplendor.

 

 

Quando, eu, lá ia, sozinho…

levava o meu pucarinho

pintado, com a florinha,

que eu enchia de mansinho

e murmurava baixinho     

fonte da vila, rainha.

 

Matos Serra

 

 

                          
              RAINHA DAS FONTES
 (Mote de Rosa Pires – Poetisa de Monforte)

MOTE

És vida, poema e cor,

Que sais da terra fresquinha,

Espelho, pureza, esplendor,

Fonte da vila, rainha.

 

Das belezas desta vila

antiga, simples, modesta…

repositório que nos resta

da sua alma tranquila.

Tens o alo redentor

da vizinhança dos montes,

és a rainha das fontes,

és vida, poema e cor.

 

Um manancial de energia,

que as gentes vinham buscar

para usarem no seu lar,

p’ró vigor do dia a dia.

Em tempos, quando eu cá vinha,

voltava forte na ida,

porque, tu, és força e vida

que sais da terra fresquinha.

 

Tu suavizas as almas

e lavas penas e mágoas,

jorra paz das tuas águas

que cantam nas tardes calmas.

O teu som inspirador,

gemendo na fresca aragem,

é, no quadro da paisagem,

espelho, pureza, esplendor.

 

Foste-me porto de abrigo

onde mitiguei agruras,

pelas tuas águas puras

vinha sempre ter contigo.

E, cada vez que cá vinha,

averbava um bom momento…

Foste-me força e alento…

Fonte da Vila, rainha  !

                                                    Matos Serra 

    RECORDAÇÕES

Existe junto à vila de Monforte, minha terra, uma fonte velhinha como os séculos, que nos tempos passados fornecia água à população e a que os antigos atribuíam propriedades curativas.

A velhinha fonte está envolvida por um ambiente natural, bucólico e muito acolhedor e por ter sido, durante séculos, um manancial para os habitantes, perde-se na noite dos tempos a sua designação carregada de um profundo sentimento – “FONTE DA VILA”.

Para completar o quadro afetivo, o poema que segue radica no mote de uma poetisa minha conterrânea, “ROSA PIRES, que, como eu, se deixou inspirar por esse quadro bucólico que em tempos foi para mim lugar de constantes peregrinações

 

MOTE

 

És vida, poema e cor,

Que sais da terra fresquinha,

Espelho, pureza, esplendor,

Fonte da vila, rainha.

 

Aqui, onde, em tempos idos,

vinha beber tuas águas,

em silêncios recolhidos

lavava penas e mágoas…

Entre as urzes e as fráguas

eu sentia em meu redor

o silêncio redentor

das aragens destes montes…

Minha rainha das fontes…

És vida, poema e cor!...

 

Fonte, que és, da nostalgia

dos tempos da minha infância,

da água, enquanto caía,

ouço, ainda, a ressonância…

Sinto a suave fragrância

da natureza vizinha

e ouço de cada avezinha

um canto de terna calma…

Ternura doce p’rá alma

Que sais da terra fresquinha.

 

Recordo, da juventude,

o meu tempo das paixões,

em que, a água, era a virtude

que inundava os corações.

Em quantas ocasiões

eu fui colher uma flor…

para que a jura de amor

fosse solene e sentida…

e tu, fonte… eras ermida,

Espelho, pureza, esplendor.

 

 

 

 

Meu quadro vivo, sem preço…

ex-libris da frescura,

longe de ti não me esqueço…

mas, aqui… ardo em ternura.

Ao beber a água pura

a doçura me acarinha…

logo de mim se avizinha

uma onda de emoções…

Éden de recordações…

Fonte da vila, rainha.

 

 

Matos Serra in, Alentejo, suas belezas, suas terras e suas gentes.      

 

domingo, 24 de novembro de 2013

CONTO DA D. FARTURA E DO PADRE TADEU

APRESENTAÇÃO AOS JOGOS FLORAIS DE OUTONO, EM MONFORTE - 23-11-2013
MODALIDADE: TRATAMENTO DO ADÁGIO POPULAR - "Faz bem, sem olhar a quem

EXPLICAÇÃO SOBRE O PROCESSO CRIATIVO DO POEMA
Para escrever o meu poema, dado o aspeto sui-géneres da temática, tentei faze-lo com alguma graça e não menos sentido crítico, em termos de poesia "social e política". Lembrei-me, então, das grandes fomes nos tempos do fascismo e eu, aí a meio dos anos quarenta, do século passado, com seis/sete anos de idade, já me aperceber que andavam de mãos dadas a grande pobreza e a atitude providencialista da vida, embora, talvez... nessa altura, não as definisse tão bem nem com o mesmo sentido crítico. Mas me lembro, muito bem, que os ricos que viviam à grande cá na terra, ainda tentavam comprar um bom lugar no céu à custa da miséria dos pobres.
O padre da minha terra tinha, sempre, em seu poder, uma dilatada lista de pobres para, quando falecia algum ricaço, os familiares mandarem rezar a missa, com casa cheia, ao preço da uva mijona... digamos que havia sempre efetivo suficiente para a missa ter muitos fieis e figurantes  capazes de fazer ouvir as suas preces, por via eclesial, até ao reino de Deus. Havia sempre pobres que chegassem... digamos que a oferta de pobres era sempre superior á procura. Tendo em conta essa realidade e sua analogia com a situação atual... eu, organizei o meu poema recorrendo ao género dramático e ao estilo vicentino e saiu a peça que segue. Pelo facto acabei por ficar muito grato á memória de Mestre Gil.

TÍTULO: CONTO DA D. FARTURA E DO PADRE TADEU

NARRADOR:      Andava a D. Fartura
                              a tentar ganhar o céu...
                              vai daí, foi à procura
                              do senhor Padre Tadeu.
D. FARTURA:     Ouça cá, ó Senhor Cura...
                              eu quero fazer o bem.
PADRE TADEU: Fazer o bem assegura
                              um bom lugar no Além...
D. FARTURA:     Então devo começar
                              já no domingo que vem
                              a distribuir esmola aos pobres...
PADRE TADEU:  E, eu, irei anunciar,
                              sem que me falte ninguém,
                              exceto ricos e nobres
                              que, aqui, não devem contar,
                              venha pronta para rezar
                               e traga a bolsa dos cobres.
                               E não terá que gastar
                               muita da sua riqueza...
                               que, mesmo sem se alargar,
                               os pobres não vão faltar
                               que o que não falta é pobreza...
                               Por isso, com uns tostões
                               por cabeça, o povo inteiro
                               vem creditar orações...
                               Não gasta muito dinheiro...
                               que, eu, ofereço-lhe os sermões.
D. FARTURA:      Eu quero, enquanto cá ande,
                               a vida eterna ganhar
                               com bom lugar no Além...
                               Cá, em baixo, vivo à grande,
                               e quero fazer o bem,
                               para isso... não olho a quem.
PADRE TADEU:  Vamos cá a ver então
                                qual a melhor decisão
                                que garanta a cem por cento
                                uma boa solução...
D. FARTURA:       Ponha o povo em oração
                                que eu garanto o orçamento...
                                e, não quero ser injusta,
                                ganhar o céu à sua custa
                                e com pouco investimento...
                                Tem o meu consentimento!
~PADRE TADEU:  Eu faço seja o que for
                                 p'ra tratar dos seus assuntos...
                                 Entregue-se ao criador,
                                 não vá desta p'ra melhor
                                 sem me arranjar dois presuntos,
                                 que, eu... garanto-lhe à prior,
                                 um lugar acolhedor
                                 junta aos sagrados defuntos.

                                 Matos Serra,in Poesia Social e Política
(Este poema foi apresentado, nos Jogos Florais de outono, em Monforte, sob o pseudónimo - Inácio)   

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

"MUITA PALHA... E POUCO GRÂO

O TRATAMENTO DESTE ADÁGIO EM POESIA IRÓNICA E SATÍRICA TEM A INTENÇÃO DE, BRINCANDO COM A LINGUAGEM, CONTRIBUIR PARA UMA CERTA CRÍTICA DOS COMPORTAMENTOS. NÃO É PORQUE EU SEJA UM MORALISTA...QUERO APENAS EVIDENCIAR A MORAL SUBJACENTE AO ADÁGIO EM QUESTÃO E DIVULGAR UM POUCO A RIQUEZA DA SABEDORIA POPULAR QUE LHE VALORIZA O CONTEÚDO.

" MUITA PALHA, E POUCO GRÃO"
É caso para perguntar,
onde é que fomos buscar
tão saboroso pregão...
que, por ser curto, é então,
designado de rifão?
Envolto em sabedoria
e em saborosa ironia
carregada de sugestão.

Vem do simbolismo antigo
que se coloca ao abrigo
de uma linguagem concreta
para atingir a sua meta...
e, faz parte da seleta
popular, mas não pateta...
que o povo trouxe consigo.

Coberto com um discurso
feito de simplicidade,
mas, de grande acuidade...
Fez, então, o seu percurso,
como irónico recurso,
contra toda a falsidade
e sempre a bem da verdade.

Que, no juízo diário,
sobre a humana fraqueza,
às vezes, é necessário
pela sua subtileza,
para criticar, com franqueza...
o discurso do precário
a querer fingir de grandeza...

Quando a promessa é promessa
que não passa de conversa;
Quando a conversa é fiada...
a razão está corrompida,
se fala sem dizer nada...
ou, quando nas eleições...
são bonitos os sermões
mas a promessa é esquecida.
E, enfim... em casos mais
e que são outros que tais...
E, noutras ocasiões
em que se fala demais
e se ultrapassa a medida.

Sempre, em cada situação
em que é clara a falsidade...
se usa, com propriedade
o nosso velho rifão.

Se confunde quantidade
com razão e qualidade
e se instala a confusão...
Ou parvo a fingir esperteza...
Vê-se, logo, com clareza...
"MUITA PALHA, E POUCO GRÃO"

 Matos Serra
In, Tratamento dos Adágios Populares.
 (Este poema é um prémio literário)