OS CASAMENTOS DE JACOB - PELA DIGNIFICAÇÃO E LIBERTAÇÃO DA MULHER
Este despretencioso poema, reconta, com um cheirinho de ficção, uma história da Bíblia, e reescreve a ideia que Luís Vaz tratou num dos seus mais belos sonetos, contar em poesia, o cambalacho acordado entre Labão e Jacob, em que este pastor comprou ao amo, as duas filhas, Lia e Raquel. Luís Vaz dourou bastante a pílula, com o extraordinário romantismo que lhe era peculiar, enquanto que eu pensei pôr a tónica na crítica à poligamia da época que a Palavra de Deus tem continuado a aceitar.
A possibilidade das mulheres poderem decidir sobre os seus problemas, nomeadamente, sobre o estabelecimento das suas próprias relações conjugais, foi muito difícil, através dos séculos, como esta história, que Camões cobriu com o manto diáfano da fantasia, comprova.
TÍTULO: OS CASAMENTOS DE JACOB
Jacob, um rapagão que era pastor
e guardava as ovelhas de Labão,
era mais que pastor, um pingamor,
não controlava o fogo da paixão.
A filha de Labão, linda donzela,
às vezes passeava pelo prado,
o sol iluminava o rosto dela...
Jacob quase ficava deslumbrado.
Um dia, vai Raquel a ver o gado,
esvoaça-lhe a saia com o vento,
o pobre do pastor fica excitado
e vai pedir Raquel em casamento.
Envolvido nas teias da paixão,
tornou-se para além de guardador
do rebanho de ovelhas de Labão
num promitente genro do senhor.
Jacob foi recebido por Labão
e Labão que era mente muito astuta
e propôs a jacob a condição
de a pagar com sete anos de labuta.
Sete anos a partir deste momento
a guardares a ovelhas dia a dia...
mantens-me em equilíbrio o orçamento
e, no fim, tê-la-ás por companhia.
Jacob apaixonado por Raquel...
sete anos a pagar... chegou o dia...
lá vai p'rá receber... mas, pobre dele,
Labão guardou Raquel e deu-lhe a Lia.
Fica o pobre pastor desapontado
que Labão o contrato não cumpria,
p'ró negócio não ser tão desastrado
lá se conformou... levou a Lia.
A força da paixão não se esvaía...
só Lia que era doce como o mel,
com o Jacob na cama conseguia
fazê-lo esquecer-se da Raquel.
Se a Raquel ia ao campo e se esquecia
de aconchegar um pouco os tornozelos...
tinha sonhos à noite e não dormia...
às vezes, mais que sonhos, pesadêlos.
Quem pagava era a Lia que dizia:
meu amor, eu, assim, não aguento...
por isso ele voltou, um certo dia,
a pedir a Raquel em casamento.
Vai daí... o amor tirou-lhe o ócio,
o Jacob andava mesmo apaixonado
e, propôs a Labão outro negócio,
mas, a pensar num preço moderado.
Trabalharás sete anos sem soldada
que eu cá me arranjarei mais a velhota,
senão... vou vender a tua amada
a outro, que me pague em boa nota.
O ativo pastor ficou sem fala...
ter que esperar sete anos pela boda...
mas...seja como for... eu vou levá-la
nem que eu seja pastor a vida toda...
Foi assim que Jacob acasalou
com as duas belas filhas de Labão...
só assim a paixão se moderou
e controlou o fogo da paixão.
Foi sempre um bom marido que cumpria
e, além de cumprir, era fiel...
uma noite de amor era de Lia
outra noite de amor a de Raquel.
Contrato entre Jacob e o Labão
que as mulheres não contavam p'ró tratado...
para eles foi uma boa solução
e Deus... abençoou este noivado.
Matos Serra, in Poesia de Cariz Social.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
É PRECISO
É preciso abrir caminhos à esperança e portas ao futuro
É precisa a bonança e um jardim com ar puro
É preciso ter alguém à espera com um stock de abraços
É precisa uma nova primavera e um jardim com terraços
É precisa resistência e não ceder a cansaços
É precisa a coerência e não cruzarmos os braços
É preciso, meus amigos, resguardar a saúde
É preciso que a luta prossiga e que tudo isto mude
É preciso outro toque e um outro alaúde
Que o povo o provoque e uma força que ajude.
Matos Serra
24/12/2012
É preciso abrir caminhos à esperança e portas ao futuro
É precisa a bonança e um jardim com ar puro
É preciso ter alguém à espera com um stock de abraços
É precisa uma nova primavera e um jardim com terraços
É precisa resistência e não ceder a cansaços
É precisa a coerência e não cruzarmos os braços
É preciso, meus amigos, resguardar a saúde
É preciso que a luta prossiga e que tudo isto mude
É preciso outro toque e um outro alaúde
Que o povo o provoque e uma força que ajude.
Matos Serra
24/12/2012
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
UM DOS MEUS POEMAS DE NATAL
( APELO À TRADIÇÂO)
TÍTULO: QUERO DE VOLTA O MENINO
JESÚS E A TRADIÇÃO
Porque nos mandam, agora, p'lo Natal,
em nome de um Deus Celestial,
aquele velhote da Lapónia,
que se nos apresenta jovial,
mas, com o seu ar comercial,
nos mercados e lojas da Parvónia?
Que ensaia um ar alegre e sorridente
p'ra nos vender desde a água de colónia...
ao amendoim, licor ou aguardente?
Prefiro a figura aventureira,
esse traquina armado em alpinista
que descia p'la minha chaminé
vindo do Céu como um para-quedista,
pelo qual eu esperava a noite inteira,
que aquecia a pilinha na fogueira
e não vinha de trenó, andava a pé,
que nos trazia brinquedos na sacola
se chamava Jesús de Nazaré
e não vinha apregoar a coca-cola.
Matos Serra, in Poemas de Natal.
( APELO À TRADIÇÂO)
TÍTULO: QUERO DE VOLTA O MENINO
JESÚS E A TRADIÇÃO
Porque nos mandam, agora, p'lo Natal,
em nome de um Deus Celestial,
aquele velhote da Lapónia,
que se nos apresenta jovial,
mas, com o seu ar comercial,
nos mercados e lojas da Parvónia?
Que ensaia um ar alegre e sorridente
p'ra nos vender desde a água de colónia...
ao amendoim, licor ou aguardente?
Prefiro a figura aventureira,
esse traquina armado em alpinista
que descia p'la minha chaminé
vindo do Céu como um para-quedista,
pelo qual eu esperava a noite inteira,
que aquecia a pilinha na fogueira
e não vinha de trenó, andava a pé,
que nos trazia brinquedos na sacola
se chamava Jesús de Nazaré
e não vinha apregoar a coca-cola.
Matos Serra, in Poemas de Natal.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
É PRECISO
É precisa uma flor
é preciso um bom vinho
é preciso o amor
é preciso um caminho.
É preciso o prazer
é precisa a ternura
é preciso viver
um amor em loucura.
É preciso o carinho
é preciso o calor
melhor que um bom vinho
como um terno licor.
É preciso dizer
é preciso afirmar
que há um verbo a escolher
que é o verbo amar.
É preciso dizer
que o amor tem um custo
é preciso saber
qual o preço que é justo.
A proposta correta
e o justo valor
está na troca direta
é amor por amor.
Matos Serra
É precisa uma flor
é preciso um bom vinho
é preciso o amor
é preciso um caminho.
É preciso o prazer
é precisa a ternura
é preciso viver
um amor em loucura.
É preciso o carinho
é preciso o calor
melhor que um bom vinho
como um terno licor.
É preciso dizer
é preciso afirmar
que há um verbo a escolher
que é o verbo amar.
É preciso dizer
que o amor tem um custo
é preciso saber
qual o preço que é justo.
A proposta correta
e o justo valor
está na troca direta
é amor por amor.
Matos Serra
sábado, 4 de agosto de 2012
FINGIR OUSADIA
COMENTÁRIO AO ADÁGIO - " QUEM TEM MEDO COMPRA UM CÃO"
TÍTULO: FINFIR OUSADIA
Esta frase que se inscreve
na cultura popular
e se aceita como adágio,
eu não sei se ela se deve
de ânimo leve aceitar
sem escrutínio nem sufrágio.
E não sei se faz sentido
uma tal aquisição,
e se o medo referido
é entendido ou se não...
porque não é solução.
Os medos são muitos mil,
e dever-se-ia então
em vez de comprar um cão
era comprar um canil.
Quem a frase pronuncia
criticando o medo alheio...
por certo que se alivia
quando ao seu chama receio.
Para nós não é segredo
que ter medo de ter medo
circunscreve um medo crasso...
quando ao finfir-se ousadia
o nosso é simples fobia
e o dos outros é cagaço.
O medo é um sentimento
a não ser menosprezado,
quando se diz: "Guarda a vinha"
é porque em dado momento
reforça o tino e o tento,
a atenção e o cuidado,
na defesa da vidinha.
E... sabe bem que é assim
quem dele fez companheiro
numa vida agreste e dura,
até conseguir, por fim,
estar com ele a tempo inteiro
que o medo não se esconjura.
Porque o medo é, afinal,
próprio de qualquer mortal...
também de nós, seres humanos.
Cá por mim o que é preciso
é guardar sempre um sorriso
para o medo não causar danos.
E QUEM USAR A RAZÃO...
NÃO PRECISA COMPRAR CÃO.
Matos Serra, in comentário aos adágios
TÍTULO: FINFIR OUSADIA
Esta frase que se inscreve
na cultura popular
e se aceita como adágio,
eu não sei se ela se deve
de ânimo leve aceitar
sem escrutínio nem sufrágio.
E não sei se faz sentido
uma tal aquisição,
e se o medo referido
é entendido ou se não...
porque não é solução.
Os medos são muitos mil,
e dever-se-ia então
em vez de comprar um cão
era comprar um canil.
Quem a frase pronuncia
criticando o medo alheio...
por certo que se alivia
quando ao seu chama receio.
Para nós não é segredo
que ter medo de ter medo
circunscreve um medo crasso...
quando ao finfir-se ousadia
o nosso é simples fobia
e o dos outros é cagaço.
O medo é um sentimento
a não ser menosprezado,
quando se diz: "Guarda a vinha"
é porque em dado momento
reforça o tino e o tento,
a atenção e o cuidado,
na defesa da vidinha.
E... sabe bem que é assim
quem dele fez companheiro
numa vida agreste e dura,
até conseguir, por fim,
estar com ele a tempo inteiro
que o medo não se esconjura.
Porque o medo é, afinal,
próprio de qualquer mortal...
também de nós, seres humanos.
Cá por mim o que é preciso
é guardar sempre um sorriso
para o medo não causar danos.
E QUEM USAR A RAZÃO...
NÃO PRECISA COMPRAR CÃO.
Matos Serra, in comentário aos adágios
QUANDO A VERDADE NOS MENTE
TEMA: TRATAMENTO DO ADÁGIO POPULAR - "QUEM CANTA, O SEU MAL ESPANTA.
QUANDO A VERDADE NOS MENTE
Quem canta, às vezes, coitado...
a fingir que anda contente
sentindo-se contristado...
finge mal o que não sente,
com a verdade nos mente
tendo a tristeza presente
no cantar desafinado.
Nessa linguagem que canta
vemos a alma que chora...
A alma, trai a garganta,
porque... vemos muito embora
na voz que a verdade espanta
a fingir de ave canora...
a alma que se quebranta.
QUEM CANTA, SEU MAL ESPANTA.
Até pode ser verdade...
mas, quando a tristeza é tanta...
o cantar não persuade.
Creio, até, que desencanta,
essa tristeza que invade
a quem ouve... e a quem canta.
Matos Serra, in comentários aos adágios
QUANDO A VERDADE NOS MENTE
Quem canta, às vezes, coitado...
a fingir que anda contente
sentindo-se contristado...
finge mal o que não sente,
com a verdade nos mente
tendo a tristeza presente
no cantar desafinado.
Nessa linguagem que canta
vemos a alma que chora...
A alma, trai a garganta,
porque... vemos muito embora
na voz que a verdade espanta
a fingir de ave canora...
a alma que se quebranta.
QUEM CANTA, SEU MAL ESPANTA.
Até pode ser verdade...
mas, quando a tristeza é tanta...
o cantar não persuade.
Creio, até, que desencanta,
essa tristeza que invade
a quem ouve... e a quem canta.
Matos Serra, in comentários aos adágios
CRONOS É UM DEUS IMPLACÁVEL
TEMA: COMENTÁRIO AO ADÁGIO POPULAR "O TEMPO QUE VAI NÃO VOLTA"
Por mais que a Cronos me roje
a pedir que não se mexa,
que me deixe estar aqui
neste bem-bom que é a vida...
Vai-se o ontem, vem o hoje
e Cronos sempre me deixa
e nem apenas sorri
na hora da despedida.
Ele vai, vem a idade
que sempre me causa medo
por poder trazer doença...
"trazer dores, decrepitude..."
e, eu, não fico à-vontade
por saber que tarde ou cedo
nunca vai haver quem vença
a que nos leva a saúde.
A que se chama velhice,
ou idade, ou duração...
cada um diz como quer,
não precisa dicionário...
a que nos traz a chatice
de colar os pés ao chão
e faça o que se fizer
passa o corpo a ser calvário.
Cronos vai e já não volta,
volta outro deus mais novo
com igual comportamento,
que tem o mesmo apelido...
O que depois nos revolta...
é que, como diz o povo,
é sempre um cavalo - o tempo
que nos deixa envelhecido.
Que haverei eu de fazer
para vencer a sucessão
de dias que vão surgindo?
Que cada qual me ajude?
Que cada um que vier
traga alguma animação
e que me deixem ir indo
com sorte, vida e saúde?
Vou tornar-me indiferente
a esta cronologia
que controla o meu destino,
e vou, sem fazer alarde,
a tentar alegremente
recorrer à poesia
e pedir... com muito tino
à morte que venha tarde.
Matos Serra, in comentários aos adágios.
Por mais que a Cronos me roje
a pedir que não se mexa,
que me deixe estar aqui
neste bem-bom que é a vida...
Vai-se o ontem, vem o hoje
e Cronos sempre me deixa
e nem apenas sorri
na hora da despedida.
Ele vai, vem a idade
que sempre me causa medo
por poder trazer doença...
"trazer dores, decrepitude..."
e, eu, não fico à-vontade
por saber que tarde ou cedo
nunca vai haver quem vença
a que nos leva a saúde.
A que se chama velhice,
ou idade, ou duração...
cada um diz como quer,
não precisa dicionário...
a que nos traz a chatice
de colar os pés ao chão
e faça o que se fizer
passa o corpo a ser calvário.
Cronos vai e já não volta,
volta outro deus mais novo
com igual comportamento,
que tem o mesmo apelido...
O que depois nos revolta...
é que, como diz o povo,
é sempre um cavalo - o tempo
que nos deixa envelhecido.
Que haverei eu de fazer
para vencer a sucessão
de dias que vão surgindo?
Que cada qual me ajude?
Que cada um que vier
traga alguma animação
e que me deixem ir indo
com sorte, vida e saúde?
Vou tornar-me indiferente
a esta cronologia
que controla o meu destino,
e vou, sem fazer alarde,
a tentar alegremente
recorrer à poesia
e pedir... com muito tino
à morte que venha tarde.
Matos Serra, in comentários aos adágios.
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