HISTÓRIA DO POEMA
Quando o grupo de amigos que compõem O GRUPO "OS AMIGOS DA POESIA" organizaram a programação destinada a invocar o 11 de Novembro, "DIA DE S. MARTINHO" eu fui incumbido, em assembleia, de preparar a introdução ao evento. Tratar-se-ia de uma resenha histórica relativamente ao momento coevo do soldado das ostes de Constantino e Licínio, ao ser desmobilizado das fileiras romanas, ir da Itália para França, onde assumiu o papel de um dos primeiros bispos da cristandade, e, claro, a atribuição de um milagre que, ao que parece, foi inventado mais tarde, para dar impacto à nova confissão e ajudar a influenciar o povão para lhe conferir, paulatinamente, uma maior base social de apoio. Isso, claro está, veio a tornar-se progressivamente uma verdade venerada e a integrar-se na história, na lenda e na cultura. O povo, em cada região do Império, acrescentou-lhe, depois, os seus ingredientes culturais, étnicos e antropológicos e começou a prestar-lhe o seu culto. Aqui no sul do país, mormente no Alentejo e Ribatejo, o povo juntou-lhe os meios ao seu alcance - o vinho, a água pé, a aguardente e as castanhas com que passou a enriquecer as libações festivas e a adoçar, nas invocações anuais, a bebedeira dos sentidos.
Ao engendrar, os elementos culturais para fazer a minha introdução, eu, lembrei-me de inventar também o meu milagre do S. Martinho. Porque razão não teria eu também esse direito? Se se têm inventado tantos que mal haveria em inventar mais um? E, avancei com um milagre descrito em verso que agora vou acrescentar ao meu blog, portanto, lá vai verso.
O SEGUNDO MILAGRE DE S. MARTINHO
( Apresentado em Portalegre a 11 de Novembro de 2011)
Vi-me um dia a viajar
por um caminho onde o tempo
e o espaço eram difusos,
num Outono que ainda lembro.
Era difuso o caminho
e era o mês de Novembro
e dia de S. Martinho.
Teve facetas estranhas,
estranhas... e bem confusas...
e outras que já não lembro,
com frialdades tamanhas!...
Frias brisas de Novembro
e peripécias difusas.
Eu rolava serra acima,
às vezes, fora de mão...
Demandei terras de Amaya
onde há história e tradição
e o mistério nos anima
por onde a lenda se espraia.
Viajava na aventura
sem sonhos de fama ou glória,
só pensava na procura
do encontro com a História.
Entretanto, anoiteceu
e perdi-me no caminho,
quando tal aconteceu
vi-me isolado e sozinho.
Logo a bruma me envolveu,
porque a noite me encerrou
em denso manto de breu
que de todo me isolou.
Perdi o centro da estrada
no espesso nevoeiro,
livrei-me por um quase nada
no momento em que me abeiro,
com a visão desfocada,
dum enorme precipício...
Todo o meu corpo tremeu,
o olhar se enevoou
como se fosse enfrentar
juizes do santo ofício.
Para meu azar e suplício,
por má sorte ou por má sina...
cai a roda num buraco
mesmo à beira da ravina.
Óh!... que má sorte madrasta!
Disse eu, de mim para comigo...
Já me basta o que me basta,
de medo, aventura e perigo.
Saí de dentro do carro,
fui para junto de um chaparro
onde procurei abrigo.
Porque o frio chegava a trote
no dorso da fresca aragem,
resquício do vento norte...
eu lembrei-me do capote
que ficara na bagagem.
E, sem ser homem de fé
que mova muitas montanhas
lembrei-me da água pé
mais o calor das castanhas
que me aquecesse as entranhas.
Quase a perder o alento
lembrei-me nesse momento
de invocar o S. Martinho,
e, naquela situação,
eu rendi-me à tradição
das castanhas e do vinho.
Então, vi seis cavaleiros,
trepando sobre barrancos,
com os seus cavalos brancos
que me apareciam fronteiros,
cujos arreios reluzentes
iluminavam a noite!...
Sem ser homem que me afoite
a tirada transcendente
eu perguntei: Quem vem lá?
Pararam à minha frente!...
Foi então que num instante,
numa visão deslumbrante
uma luz iluminou
todo o espaço circundante
e então um deles falou.
Com seus modos imponentes,
vinha de toga vestido
que caía meio dobrada
sobre a cela da montada...
Me disse que era Trajano,
o Imperador Romano,
que nas Espanhas nascido
em Mérida teve morada.
Outro, de ar altivo e sério,
quase de porte divino,
declarou ser Constantino
que repartiu com Licínio
a extensão do seu império,
e reinou no Oriente
com ousadia e critério...
Fez do império em declínio
o seu império imponente...
evitou a confusão,
quase a raiar o abismo,
adotando o Cristianismo
e fez-se chefe cristão.
Para evitar a peleja
concentrou em sua mão
o poder e a gestão
do Império e da Igreja.
Um outro era o nobre Lísias,
terno pai da bela Maia,
que fundou esta cidade,
há muito tempo passado,
um pouco ali mais ao lado,
lá para junto da arraia.
Ao seu lado vinha a filha,
que ainda vive encantada
por montes, serras e vales...
e que espalha a lenda antiga
com seu cavalo de luz
e é mãe desta cidade.
À frente vinha Jesus
com o seu servo Martinho,
soldado de Constantino,
que lutou p'la Cristandade
com a espada e com a cruz,
que escondia sob a capa
a sua infusa de vinho.
Logo me pôs àvontade...
Da capa deu-me metade
e, do vinho... meia infusa...
a mente ficou confusa
mas passou-me a frialdade.
Foi então que, de repente,
senti o corpo mais quente
como um doce verão chegando,
e, vi seis cavaleiros voando
subindo sobre a vertente.
Com intenção de alcançá-los
eu tomei a viatura
com os noventa cavalos
a voar a meia altura
comprimidos no motor
para poder controlá-los.
Cruzando o dorso da serra,
pairamos sobre a cidade...
baixamos de novo à terra
em perfeita liberdade
no largo dos combatentes,
e ficamos mesmo em frente
da Tasca do Zé Bébé,
para bebermos um copinho
de bom vinho e água-pé.
Só depois é que acordei
ainda um pouco estremunhado
deste meu sonho agitado.
Era já um novo dia...
Na rua da Mouraria
estava na cama deitado.
Matos Serra
11 de Novembro de 2011
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
SUAS GRAÇAS E SEUS SONHOS - SONETO SOBRE AS CRIANÇAS
Dedicado a todas as crianças do mundo ainda sujeitas a um mundo de falcões e predadores.
SUAS GRAÇAS E SEUS SONHOS
Pudera ser poeta para cantar
os olhares e sorrisos das crianças...
Dos meus versos poder fazer brotar
arsenais de alegrias e bonanças.
Ter um subtil engenho e alcançar
mimosas sinfonias e lembranças...
em versos talentosos recordar
suas graças e sonhos - suas 'speranças...
Quisera num soneto comprimir
todo o bem, todo o amor, toda a ternura...
e, carinho, por todas repartir.
P'lo mundo, e num tropel de aventura,
correr, voar... em busca de um porvir
de carinho, de amor e de ventura!...
Matos Serra
SUAS GRAÇAS E SEUS SONHOS
Pudera ser poeta para cantar
os olhares e sorrisos das crianças...
Dos meus versos poder fazer brotar
arsenais de alegrias e bonanças.
Ter um subtil engenho e alcançar
mimosas sinfonias e lembranças...
em versos talentosos recordar
suas graças e sonhos - suas 'speranças...
Quisera num soneto comprimir
todo o bem, todo o amor, toda a ternura...
e, carinho, por todas repartir.
P'lo mundo, e num tropel de aventura,
correr, voar... em busca de um porvir
de carinho, de amor e de ventura!...
Matos Serra
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
A MINHA MÃE, UM ANO DEPOIS DA SUA MORTE
Muitas vezes lhe ouvi contar que, quando pequena lhe chamavam a francesinha, porque era muito lourinha e de olhos azuis. Também lhe ouvi contar cenas do seu tempo de rapariga. Tudo isso somado ao mais da sua vida que eu constatei - a sua ternura, a sua tenacidade, a sua luta, a sua doçura e grandeza de alma, tudo isso me trouxe, quando fez um ano da sua morte, uma muito difícil saudade. Como catarse para me ajudar a suportar a imensa dor da sua definitiva ausência eu escrevi, então, de mistura com muitas lágrimas, o poema que se segue:
POEMA E LÁGRIMAS
Tu foste primeiro a criança loura,
a francesinha terna de olhos
azuis e doces que se abriam para a vida!
Uma vida de ternuras por haver!
Depois, foste a rapariguinha
com sonhos carregados de mistério
que não teve tempo de ser menina
nem de sonhar a adolescência!
Depois foste a moça que eu hoje imagino,
recordando o que te ouvia contar,
que dividiste o teu tempo
por alguns sonhos, pelo trabalho árduo
e alguns folguedos e alegrias
inevitáveis dessa idade.
Depois casaste, amaste e sofreste
e pariste-me à pressa num interválo
entre lavar a roupa e cuidar dos meus irmãos,
e nunca tinhas tempo para ti própria.
Criaste-nos como quem vence uma batalha!
Depois começaste a envelhecer
e foste, então, de certo modo... feliz,
e cada ruga que surgia no teu rosto
vincava mais a candura do teu ser.
Há um ano que nos deixaste
com esta saudade que me invade
o ser e repassa a alma...
com esta doce ternura
que doi e aumenta sempre!
Deixo-te, aqui, este poema
misturado com muitas lágrimas
que hão-de ser sempre teimosas
e que hoje não posso conter.
Doce mãe!
Deixo-te, também, mais um abraço,
um abraço virtual e muito apertado,
que nunca o será tanto que corresponda
a quantos tu mereceste
enquanto estiveste connosco
e nos adoçaste a vida!
Adeus, eternamente amada, mãezinha!...
Matos Serra/Poema e Lágrimas
POEMA E LÁGRIMAS
Tu foste primeiro a criança loura,
a francesinha terna de olhos
azuis e doces que se abriam para a vida!
Uma vida de ternuras por haver!
Depois, foste a rapariguinha
com sonhos carregados de mistério
que não teve tempo de ser menina
nem de sonhar a adolescência!
Depois foste a moça que eu hoje imagino,
recordando o que te ouvia contar,
que dividiste o teu tempo
por alguns sonhos, pelo trabalho árduo
e alguns folguedos e alegrias
inevitáveis dessa idade.
Depois casaste, amaste e sofreste
e pariste-me à pressa num interválo
entre lavar a roupa e cuidar dos meus irmãos,
e nunca tinhas tempo para ti própria.
Criaste-nos como quem vence uma batalha!
Depois começaste a envelhecer
e foste, então, de certo modo... feliz,
e cada ruga que surgia no teu rosto
vincava mais a candura do teu ser.
Há um ano que nos deixaste
com esta saudade que me invade
o ser e repassa a alma...
com esta doce ternura
que doi e aumenta sempre!
Deixo-te, aqui, este poema
misturado com muitas lágrimas
que hão-de ser sempre teimosas
e que hoje não posso conter.
Doce mãe!
Deixo-te, também, mais um abraço,
um abraço virtual e muito apertado,
que nunca o será tanto que corresponda
a quantos tu mereceste
enquanto estiveste connosco
e nos adoçaste a vida!
Adeus, eternamente amada, mãezinha!...
Matos Serra/Poema e Lágrimas
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
POESIA É VIDA ETERNA - SONETO
Cada curva do tempo que eu vivi,
de modo, muitas vezes, controverso,
foi forma que encontrei de estar aqui
deixando sempre um verso e mais um verso.
Brinquei, sofri, amei, chorei e ri,
num modo de viver sempre diverso
e todos os meus versos escrevi
para os lerdes, depois, no meu reverso.
Ao chegar o silêncio tão profundo,
calar a minha voz eternamente,
eu não vou aceitar suas algemas;
vou deixar minha voz cá neste mundo,
não podendo falar pessoalmente...
Irão falar, por mim, os meus poemas!...
Matos Serra
de modo, muitas vezes, controverso,
foi forma que encontrei de estar aqui
deixando sempre um verso e mais um verso.
Brinquei, sofri, amei, chorei e ri,
num modo de viver sempre diverso
e todos os meus versos escrevi
para os lerdes, depois, no meu reverso.
Ao chegar o silêncio tão profundo,
calar a minha voz eternamente,
eu não vou aceitar suas algemas;
vou deixar minha voz cá neste mundo,
não podendo falar pessoalmente...
Irão falar, por mim, os meus poemas!...
Matos Serra
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
A GUERRA COMO OFENSA II
No início da guerra colonial, já depois de termos atuado no Norte de Angola, onde o meu pelotão teve seis mortos, um dos quais foi o próprio comandante de pelotão, o malogrado Alferes Mota da Costa, numa missão de demonstração de força que a nossa companhia foi fazer, num périplo para sul, numa linha oblíqua relativamente à costa, saindo de Luanda, passando pelo Dondo, Quibala, Gabela, até Novo Redondo, em que fomos parando nestas povoações e em alguns quimbos intermédios, entramos na Vila da Gabela na tarde de 19 de Junho de 1961 já com várias centenas de quilómetros percorridos em UNIMOGs no meio de uma nuvem permanente de poeira que nos deixou os olhos em chaga. Nessa primeira fase da guerra, da nossa dotação individual de granadas faziam parte três granadas ofensivas, três defensivas e três de fumos. Tanto as granadas ofensivas como as defensivas tinham uma paleta que era fixa ao corpo da granada através de um cordão que com o andamento ou com a trepidação motivada pelo rolar das viaturas muitas vezes afrouxava motivando o incidente inopinado e deram-se muitos e com muita gravidade; digamos que cada combatente trazia uma armadilha contra si próprio, felizmente que algum tempo depois este material foi substituido e estes incidentes passaram a ser muito raros.
Nessa tarde de 19 de Junho a coluna das viaturas que transportava a 1-ª Companhia de Paraquedistas a que eu e o Ricardo (Joaquim Manuel Raimundo Ricardo), pertencíamos
entrou na Vila que percorreu até ao fim da sua avenida central, depois retrocedeu e as viaturas começaram a deslocar-se paralelamente umas às outras. Foi quando houve uma pequena paragem da coluna em que a viatura que transportava a subunidade de combate que eu comandava ficou lateral àquela em que ia o Ricardo e eu fiquei mesmo em frente dele que o incidente se deu. O Ricardo olhou para mim de uma forma que denotava algo de muito grave, porque se apercebeu que o misto-retardador de um detonador tinha incendiado. O Ricardo depois de ter olhado para mim com muita aflição dobrou-se sobre o porta granadas que cobriu com o seu corpo e, ato contínuo, deu-se a deflagração de todas as granadas elevando muitos metros acima da viatura como que um pequeno cogumelo atómico que desfez o corpo do meu malogrado amigo. Um pedaço maior do seu corpo foi parar a vários metros de distância, um outro pedaço veio bater contra o meu peito e o restante do corpo do meu amigo ficou espalhado por um raio de muitos metros. Eu fui um dos seus companheiros de armas que se empenharam a juntar o que restou do seu corpo. A viatura ficou semi- destruida e à volta dela um estendal de corpos. Dois deles passaram a fazer parte dos milhares de mutilados graves de guerra, uma herança fatídica que coube em sorte a uma parte da juventude portuguesa do século XX, os restantes ficaram feridos com mais ou menos gravidade mas todos se salvaram. Na viatura que transportava a minha subunidade de combate, do lado em que eu e mais quatro combatentes estavamos lateralmente com o Ricardo e a cerca de entre dois e três metros de distância do ponto da deflagração, apenas sofremos a expansão dos gases mas nenhum ficou, sequer, ferido.
Tal deveu-se ao facto de o Ricardo ter decidido, in extremes, abdicar do seu próprio corpo para nos salvar a vida. Pelo que melhor que mais ninguém constatei, o Ricardo é, quanto a mim, um herói de que a sua cidade deve orgulhar-se e guardar memória. No mínimo deveria ter o seu nome ligado a uma rua da cidade.
REQUIEM POR RICARDO
Na abdicação suprema do teu corpo
nos asseguraste a vida
e com tua fulminante
e austera morte
te tornaste inesquecível
e imortal.
Tua dádiva suprema
e teu exemplo
inscreveram o Infinito
em nossos corações.
Lá longe,fraterna e heróica,
tua vida se esvaíu,
mas, aqui, neste padrão,
viverás, eternamente,
nosso e presente.
Proferido pelo teu eternamente
reconhecido amigo Matos Serra
junto ao PADRÃO DOS COMBATENTES
DA TUA CIDADE DE PORTALEGRE.
Nessa tarde de 19 de Junho a coluna das viaturas que transportava a 1-ª Companhia de Paraquedistas a que eu e o Ricardo (Joaquim Manuel Raimundo Ricardo), pertencíamos
entrou na Vila que percorreu até ao fim da sua avenida central, depois retrocedeu e as viaturas começaram a deslocar-se paralelamente umas às outras. Foi quando houve uma pequena paragem da coluna em que a viatura que transportava a subunidade de combate que eu comandava ficou lateral àquela em que ia o Ricardo e eu fiquei mesmo em frente dele que o incidente se deu. O Ricardo olhou para mim de uma forma que denotava algo de muito grave, porque se apercebeu que o misto-retardador de um detonador tinha incendiado. O Ricardo depois de ter olhado para mim com muita aflição dobrou-se sobre o porta granadas que cobriu com o seu corpo e, ato contínuo, deu-se a deflagração de todas as granadas elevando muitos metros acima da viatura como que um pequeno cogumelo atómico que desfez o corpo do meu malogrado amigo. Um pedaço maior do seu corpo foi parar a vários metros de distância, um outro pedaço veio bater contra o meu peito e o restante do corpo do meu amigo ficou espalhado por um raio de muitos metros. Eu fui um dos seus companheiros de armas que se empenharam a juntar o que restou do seu corpo. A viatura ficou semi- destruida e à volta dela um estendal de corpos. Dois deles passaram a fazer parte dos milhares de mutilados graves de guerra, uma herança fatídica que coube em sorte a uma parte da juventude portuguesa do século XX, os restantes ficaram feridos com mais ou menos gravidade mas todos se salvaram. Na viatura que transportava a minha subunidade de combate, do lado em que eu e mais quatro combatentes estavamos lateralmente com o Ricardo e a cerca de entre dois e três metros de distância do ponto da deflagração, apenas sofremos a expansão dos gases mas nenhum ficou, sequer, ferido.
Tal deveu-se ao facto de o Ricardo ter decidido, in extremes, abdicar do seu próprio corpo para nos salvar a vida. Pelo que melhor que mais ninguém constatei, o Ricardo é, quanto a mim, um herói de que a sua cidade deve orgulhar-se e guardar memória. No mínimo deveria ter o seu nome ligado a uma rua da cidade.
REQUIEM POR RICARDO
Na abdicação suprema do teu corpo
nos asseguraste a vida
e com tua fulminante
e austera morte
te tornaste inesquecível
e imortal.
Tua dádiva suprema
e teu exemplo
inscreveram o Infinito
em nossos corações.
Lá longe,fraterna e heróica,
tua vida se esvaíu,
mas, aqui, neste padrão,
viverás, eternamente,
nosso e presente.
Proferido pelo teu eternamente
reconhecido amigo Matos Serra
junto ao PADRÃO DOS COMBATENTES
DA TUA CIDADE DE PORTALEGRE.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
BRINCAR NO PORTUGUÊS
O trabalho despretencioso que se segue é a resposta a um desafio que me foi posto relativamente a uma frase do extraordinário escritor moçambicano Mia Couto "Venho brincar, aqui, no português, a língua". É, portanto, uma forma descomprometida de ensaio de escrita em que, também eu, como sugere a frase em epígrafe, me proponho ir de encontro ao objetivo do Mia Couto, já que também penso que a nossa língua ganha muito ao ser ensaiada, brincada, treinada, alegrada e, das formas que nos seja possível experienciada, ganha ela, língua portuguesa, e ganhamos nós falantes e fruidores dela, também em termos de escrita.
Também eu para "brincar um pouco, aqui, no português, a lingua" recorri ao seguinte artifício:
Escrever um poema, considerá-lo como um campo, uma lavra, e usar as palavras como as sementes ou as plantas, se der mais jeito considerar assim, considerando uma certa agrimensura na distribuição das sementes relativamente à plantação geral. Dividi, por isso, o campo em três setores, ou seja, dividi o poema em três partes, cada parte corresponte à extensão de um soneto clássico, usei as aliterações para dar à linguagem colorido e ritmo, naturalmente, respeitando a medida do verso e as acentuações para lhe conferir musicalidade e alegria. Para brincar um pouco mais, em cada uma das partes que corresponde à extenção e ao aspeto formal do soneto, variei a medida do verso, assim, no primeiro usei o verso, heróico, no segundo, o sáfico e no terceiro o alexandrino. Como compus o trabalho de uma assentada, consegui, sem grande dificuldade, manter o ritmo e o colorido da linguagem até ao final da segunda parte, quero dizer, do segundo soneto, mas tive dificuldade em manter a fluência a partir do início da terceira parte, facto a que dou expressão na própria linguagem que aí utilizo.
Foi uma tentativa, à minha maneira, de brincar um pouco no português. Foi o que se conseguiu arranjar e, portanto, aí vai verso:
TÍTULO: BRINCAR NO PORTUGUÊS
PRIMEIRA PARTE - EM DECASSÍLABOS OU HERÓICOS
Gosto de aliterar os meus poemas,
"as lavras, de palavras semeadas",
nas estâncias com distâncias programadas,
não põr traves, entraves ou dilemas;
Nos versos pôr diversos emblemas
e cores, que sejam flores quando cantadas,
as falas às escalas atreladas,
sem correntes, grilhetas ou algemas.
Pôr na palavra um chiste se estou triste,
num verso que não seja controverso
pôr saborosa prosa e fluidez...
Que humor com graça em riste é que resiste,
fazer caminho inverso sobre o verso,
brincar de quando em vez... no português.
SEGUNDA PARTE, EM SÁFICOS OU HENDECASSÍLABOS
Vou p'lo curso do percurso do discurso,
que lendo estetas, prosaicos e poetas
é que descubro as cadências mais concretas,
"busco imagens ou passagens de recurso";
Treino as frases mais capazes no decurso,
querendo aferir para atingir as minhas metas
com palavras mais concisas e corretas,
e, a brincar, treino as fases do percurso.
A pensar, dizer, escrever ou a compôr...
vou pintando o português em tom e cor,
musicando a bela língua de Camões...
Meus poemas são esquemas de linguagem,
são propícios exercícios de abordagem
com diversas, controversas, emoções.
TERCEIRA PARTE, EM ALEXANDRINOS OU DODECASSÍLABOS
Já só garanto o desencanto do meu canto,
porque, entretanto, no meu canto estou tolhido,
a minha alegre e bela musa que era um espanto
eu não sei se soçobrou ou terá ido.
Já tenho em coma o cromossoma do ouvido,
em vez de humor veio o estupor do desencanto...
se um incidente imprevidente houver sofrido
esta alegria anda escondida em triste manto.
Quando quiser... deixá-la vir, não tenho pressa,
porque eu já vi que ela anda assim um tanto ou quanto
meio arredia da poesia e do trabalho...
Só vos garanto por enquanto uma promessa:
meto esta musa tão confusa num recanto"
para brincar no português - e já não falho!...
Matos Serra em
ensaios de linguagem.
Também eu para "brincar um pouco, aqui, no português, a lingua" recorri ao seguinte artifício:
Escrever um poema, considerá-lo como um campo, uma lavra, e usar as palavras como as sementes ou as plantas, se der mais jeito considerar assim, considerando uma certa agrimensura na distribuição das sementes relativamente à plantação geral. Dividi, por isso, o campo em três setores, ou seja, dividi o poema em três partes, cada parte corresponte à extensão de um soneto clássico, usei as aliterações para dar à linguagem colorido e ritmo, naturalmente, respeitando a medida do verso e as acentuações para lhe conferir musicalidade e alegria. Para brincar um pouco mais, em cada uma das partes que corresponde à extenção e ao aspeto formal do soneto, variei a medida do verso, assim, no primeiro usei o verso, heróico, no segundo, o sáfico e no terceiro o alexandrino. Como compus o trabalho de uma assentada, consegui, sem grande dificuldade, manter o ritmo e o colorido da linguagem até ao final da segunda parte, quero dizer, do segundo soneto, mas tive dificuldade em manter a fluência a partir do início da terceira parte, facto a que dou expressão na própria linguagem que aí utilizo.
Foi uma tentativa, à minha maneira, de brincar um pouco no português. Foi o que se conseguiu arranjar e, portanto, aí vai verso:
TÍTULO: BRINCAR NO PORTUGUÊS
PRIMEIRA PARTE - EM DECASSÍLABOS OU HERÓICOS
Gosto de aliterar os meus poemas,
"as lavras, de palavras semeadas",
nas estâncias com distâncias programadas,
não põr traves, entraves ou dilemas;
Nos versos pôr diversos emblemas
e cores, que sejam flores quando cantadas,
as falas às escalas atreladas,
sem correntes, grilhetas ou algemas.
Pôr na palavra um chiste se estou triste,
num verso que não seja controverso
pôr saborosa prosa e fluidez...
Que humor com graça em riste é que resiste,
fazer caminho inverso sobre o verso,
brincar de quando em vez... no português.
SEGUNDA PARTE, EM SÁFICOS OU HENDECASSÍLABOS
Vou p'lo curso do percurso do discurso,
que lendo estetas, prosaicos e poetas
é que descubro as cadências mais concretas,
"busco imagens ou passagens de recurso";
Treino as frases mais capazes no decurso,
querendo aferir para atingir as minhas metas
com palavras mais concisas e corretas,
e, a brincar, treino as fases do percurso.
A pensar, dizer, escrever ou a compôr...
vou pintando o português em tom e cor,
musicando a bela língua de Camões...
Meus poemas são esquemas de linguagem,
são propícios exercícios de abordagem
com diversas, controversas, emoções.
TERCEIRA PARTE, EM ALEXANDRINOS OU DODECASSÍLABOS
Já só garanto o desencanto do meu canto,
porque, entretanto, no meu canto estou tolhido,
a minha alegre e bela musa que era um espanto
eu não sei se soçobrou ou terá ido.
Já tenho em coma o cromossoma do ouvido,
em vez de humor veio o estupor do desencanto...
se um incidente imprevidente houver sofrido
esta alegria anda escondida em triste manto.
Quando quiser... deixá-la vir, não tenho pressa,
porque eu já vi que ela anda assim um tanto ou quanto
meio arredia da poesia e do trabalho...
Só vos garanto por enquanto uma promessa:
meto esta musa tão confusa num recanto"
para brincar no português - e já não falho!...
Matos Serra em
ensaios de linguagem.
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